O que os dados do Censo 2022 ainda têm a nos dizer sobre o Brasil
Ilustração: Dados e Contexto
O Censo Demográfico de 2022 foi o maior esforço de coleta de dados sobre a população brasileira em uma década. Mais de 215 milhões de pessoas, 90 milhões de domicílios, centenas de variáveis. Os resultados principais foram amplamente noticiados quando divulgados. Mas os microdados — a base completa que permite análises mais sofisticadas — continuam sendo explorados por pesquisadores, e as descobertas são reveladoras.
Uma análise recente conduzida pelo Centro de Estudos da Metrópole cruzou dados de renda, escolaridade e localização geográfica para mapear o que os pesquisadores chamam de "segregação multidimensional" — a concentração de desvantagens em determinados territórios. Os resultados confirmam o que muitos suspeitavam, mas com uma precisão que os dados anteriores não permitiam.
A geografia da desigualdade
O Brasil é um país desigual — isso não é novidade. Mas o Censo 2022 permite quantificar essa desigualdade com uma granularidade inédita. Em São Paulo, a diferença de expectativa de vida entre bairros ricos e pobres chega a 14 anos. No Rio de Janeiro, a diferença de renda entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, quando calculada por setor censitário, é de mais de 50 vezes.
Esses números não são apenas estatísticas. Eles representam trajetórias de vida radicalmente diferentes para pessoas que vivem, em alguns casos, a poucos quilômetros de distância.
"O Censo não nos diz o que fazer. Mas nos diz onde olhar — e isso já é muito." — pesquisadora do CEM
Habitação: o dado que surpreende
Um dos achados mais discutidos do Censo 2022 é sobre habitação. O Brasil tem mais de 8 milhões de domicílios vagos — ao mesmo tempo em que tem um déficit habitacional estimado em 8 milhões de moradias. Essa aparente contradição tem explicações complexas: imóveis vagos por especulação, por herança não resolvida, por inadequação para o uso habitacional, por localização incompatível com a demanda.
O dado levanta questões sobre política habitacional que vão além da construção de novas moradias. Há um estoque existente que, com as políticas certas, poderia ser mobilizado para reduzir o déficit.
O que falta nos dados
O Censo também tem limitações importantes. A coleta de dados sobre populações em situação de rua é reconhecidamente problemática. Comunidades quilombolas e indígenas em áreas remotas têm cobertura incompleta. E há variáveis que o Censo simplesmente não coleta — saúde mental, qualidade das relações sociais, percepção de segurança — que são relevantes para entender bem-estar.
Isso não diminui o valor do Censo. Mas lembra que nenhum conjunto de dados é completo, e que a interpretação responsável dos dados exige consciência de suas limitações.