Saúde mental no Brasil: os dados que mostram uma crise que não está sendo tratada como tal
Ilustração: Dados e Contexto
O Brasil tem a maior prevalência de ansiedade do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde — 9,3% da população, comparado a uma média global de 3,6%. É o quinto país em prevalência de depressão. Esses números representam dezenas de milhões de pessoas vivendo com condições que comprometem sua qualidade de vida, sua capacidade de trabalhar, seus relacionamentos.
E ainda assim, a saúde mental raramente aparece como prioridade nas agendas de saúde pública brasileiras. Os recursos são escassos, o estigma é persistente, e o sistema de atenção está longe de ser adequado para a escala do problema.
O que os dados mostram
Uma pesquisa da Fiocruz realizada em 2025 com uma amostra representativa da população brasileira encontrou que 34% dos entrevistados relataram sintomas de ansiedade de moderada a grave nos 30 dias anteriores à entrevista. Entre jovens de 18 a 24 anos, o percentual chegou a 48%.
Os grupos mais afetados são mulheres (especialmente mães com filhos pequenos), jovens, pessoas de baixa renda e trabalhadores informais. Há uma sobreposição clara entre vulnerabilidade socioeconômica e vulnerabilidade em saúde mental — o que não é surpreendente, mas é importante para pensar as soluções.
O sistema que não dá conta
O SUS tem uma rede de atenção psicossocial — os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) — que é referência internacional em seu desenho. Mas a rede é insuficiente em número e em qualidade. Há municípios sem nenhum CAPS. Há CAPS funcionando com equipes incompletas, sem medicamentos básicos, sem estrutura adequada.
A atenção primária, que deveria ser a porta de entrada para casos menos graves, raramente tem capacidade de oferecer suporte em saúde mental. Médicos de família não têm formação adequada, não têm tempo nas consultas e não têm para onde encaminhar quando identificam um caso.
O que funciona
Há evidências robustas de intervenções eficazes em saúde mental que poderiam ser escaladas no contexto brasileiro: terapia cognitivo-comportamental em formato breve, grupos de apoio comunitário, integração de saúde mental na atenção primária, programas de apoio a cuidadores. O problema não é falta de conhecimento sobre o que funciona — é falta de vontade política e recursos para implementar.